quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Ao ausente ainda presente*




[...] e o próprio tempo, no papel tão fácil de dividir em atos e cenas, naquele exato momento, estava escapulindo por entre seus dedos, de modo incontrolável.

(Reparação – Ian McEwan)




Estamos em pleno outono. Não sei se pela cadência da estação, mas hoje, assim como todos os outros dias, porém com mais intensidade, lembrei do momento em que Ele me dizia adeus. Um adeus tão prematuro que, a todo instante, me fragiliza. Releio alguns escritos, revejo fotos, e, tal como um filme, imagens vão se colocando à minha frente. Parece que tudo aconteceu ontem mesmo, ou melhor, há minutos, instantes atrás. Sua presença ainda é tão forte em mim, que ainda sinto exalar o seu cheiro quando passo ou permaneço naqueles lugares que nos eram tão familiares e que, agora, carregam apenas as mais ternas lembranças e os desejos mais íntimos.

Chove lá fora. Saio porque quero que o ato de molhar faça com que as gotas d’água se vertam em sangue de meus poros, esgarçando, a quem queira ver, minhas veias pulsantes, e, assim, minha dor. É o sentimento mais barroco que conheço: ora exultante em júbilos, ora desgraçado por aquilo que parece dilacerar o tecido frágil que envolve o coração. E é neste segundo momento, infelizmente, em que me encontro.

Certa vez Reika escreveu: ‘Nem sei dizer o quanto dói esse mover-se’. Nesse instante, eu também não. Por isso há dias parei a escrita desse texto, pela falta de coragem em descrever como o passar dos dias me machucam, eles são tão cheios de vazios... Mas tomei emprestadas algumas forças para concluí-lo, é o meu querer.

Então, após dias de atraso e já no inverno, cristalizam-se, como o gelo, comum nessa época do ano, os instantes que no outono eram meras lembranças. Talvez agora meu peito já não esteja mais aberto e minha dor já não seja mais sem tamanho. É hora de pensar no agora, que há um segundo a frente já é depois. É preciso aproveitar positivamente cada instante que passamos pela vida, ou, pelo menos, por essa vida. Ela é infinitamente mínima.

O que me resta? Uma onda frêmita de medo. Tudo se resume em medo. Medo de não mais poder querer o bem querer, não querer o futuro próximo, somente a Ele. Medo d’Ele não mais me querer de maneira alguma. Tentativas frustradas apontam para a conclusão de que não devo abrir qualquer minúscula fenda a quem quer que se disponha a me fazer sorrir. Porque, agora, meu sorriso é incompleto, meus lábios sorriem pela metade.



*A escritura desse texto iniciou-se nos meados do outono de 2009, sendo finalizado no início do inverno do mesmo ano.

2 comentários:

  1. Fiquei impressionada, como quão lindo você descreve um sentimento que de certo modo é egoísta. Eu devo lhe dizer que cada pequeno espaço para a felicidade é essencial, e não deve ser desperdiçado jamais. Imagino, sem sucesso, como deve ser ruim a ausência de uma presença tão importante, mais uma vez quando pensava em como as coisas parecem ser e como elas realmente são, eu disse "um verdadeiro sorriso não se constata quando ele surge, e sim quando ele se esvai" porque quando você se deixar sorrir, não importa quão pela metade ele seja, ele pode deixar uma ótima sensação quando for embora. Pense que talvez a chuva não seja para deixar a mostra os seus sentimentos em frangalhos, mais sim para levar de vez para longe os cheiros que te atormenta e as lembranças que teimam em ficar. Então, contra todos os sentimentos intimidantes a ultima palavra é um segredo universal. Permita-se!... Mora

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  2. Renan Calheiros Franco30 de agosto de 2009 às 10:52

    A cada dia q passa vc nos surpreende com suas escritas envolventes,que nos fazem refletir sobre muitas coisas!
    Concordo muito com o q a Mora ecreveu.
    As vezes temos q nos permetir algo, para satisfazer nossos desejos!
    Espero q isso acontesa o mais rapido possivél!
    bjs
    saudades



    Renan Calheiros Franco

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