segunda-feira, 16 de novembro de 2009

OS ESPELHOS

- O que é um espelho? Não existe a palavra espelho - só espelhos, pois um único é uma infinidade de espelhos. - Em algum lugar do mundo deve haver uma mina de espelhos? Não são preciso muitos para se ter a mina faiscante e sonambólica: bastam dois, e um reflete o reflexo do que o outro refletiu, num tremor que se transmite em mensagem intensa e insistente ad infinitum, liquidez em que se pode mergulhar a mão fascinada e retirá-la escorrendo de reflexos, reflexos dessa dura água.


- O que é um espelho? Como a bola de cristal dos videntes, ele me arrasta para o vazio que no vidente é o seu campo de meditação, e em mim o campo de silêncios e silêncios. - Esse vazio cristalizado que tem dentro de si espaço para se ir para sempre sem parar: pois espelho é o espaço mais profundo que existe.- E é coisa mágica: quem tem um pedaço quebrado já poderia ir com ele meditar no deserto. De onde também voltaria vazio, iluminado e translúcido, e com o mesmo silêncio vibrante de um espelho.- A sua forma não importa: nenhuma forma consegue circunscrevê-lo e alterá-lo, não existe espelho quadrangular ou circular: um pedaço mínimo é sempre o espelho todo: tira-se a sua moldura e ele cresce assim como água se derrama.

- O que é um espelho? É o único material inventado que é natural. Quem olha um espelho conseguindo ao mesmo tempo isenção de si mesmo, quem consegue vê-lo sem se ver, quem entende que a sua profundidade é ele ser vazio, quem caminha para dentro de seu espaço transparente sem deixar nele o vestí­gio da própria imagem - então percebeu o seu mistério. Para isso há-de se surpreendê-lo sozinho, quando pendurado num quarto vazio, sem esquecer que a mais tênue agulha diante dele poderia transformá-lo em simples imagem de uma agulha.


Devo ter precisado de minha própria delicadeza para não atravessá-lo com a própria imagem, pois espelho que eu me vejo sou eu, mas espelho vazio é que é espelho vivo. Só uma pessoa muito delicada pode entrar num quarto vazio onde há um espelho vazio, e com tal leveza, com tal ausência de si mesma, que a imagem não marca. Como prêmio, essa pessoa delicada terá então penetrado num dos segredos invioláveis das coisas: Vi o espelho propriamente dito.E descobri os enormes espaços gelados que ele tem em si, apenas interrompidos por um ou outro alto bloco de gelo.


Em outro instante, este muito raro - e é preciso ficar de espreita dias e noites, em jejum de si mesmo, para poder captar esse instante - nesse instante consegui surpreender a sucessão de escuridões que há dentro dele. Depois, apenas com preto e branco, recapturei sua luminosidade arco-irisada e trêmula. Com o mesmo preto e branco recapturei também, num arrepio de frio, uma de suas verdades mais difí­ceis: o seu gélido silêncio sem cor. É preciso entender a violenta ausência de cor de um espelho para poder recriá-lo, assim como se recriasse a violenta ausência de gosto da água.



(Clarice Lispector)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Canção à distância

A Renan Calheiros Franco





De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

(Soneto de separação - Vinícius de Moraes)




Numa de suas obras-primas, Cem anos de Solidão, Gabriel García Márquez afirma que "a ciência eliminou as distâncias". De fato, atualmente, com o advento da globalização, e, consequentemente, das inovações tecnológicas, o acesso a informações de ampla natureza tem sido facilitado. Com isso, uma das ferramentas mais utilizadas para fins comunicativos é, sem dúvida, a internet. Em verdade, não estou aqui com o objetivo de informar-lhes sobre a importância dos veículos de informação no século XXI, essa tarefa eu deixo a cargo daqueles que se interessem em fazê-la, mas é importante salientar o contexto de uma, das tantas reviravoltas que me ocorreram vida afora.


Dissonar de García Márquez é até um pecado, mas é necessário colocar que a ciência, a tecnologia, a internet, não eliminam distâncias. Por um lado, esses recursos até aproximam pessoas que estão não muito próximas, fisicamente falando, mas, por outro, torna cada vez mais evidente a dimensão dessa distância. Digo isso por experiência própria, são, nada menos, que 3.700 km que se colocam entre nós. E, pode ter certeza, se não fosse o Google eu não teria essa informação com tanta precisão! Estamos, literalmente, nos extremos de uma mesma bússola.


O desenrolar do novelo pesado que é a distância, acarreta uma (re)visita a um campo semântico não muito bem-aventurado, aquele que envolve lexemas como afastamento, violação, ruptura, separação, saudade... No meu ponto de vista, esse é um dos grupos de palavras mais angustiante da Língua Portuguesa. Mas, mesmo assim, em meio a tantas possíveis impossibilidades, ouvi falar por aí, de uma moça e um rapaz que se conheceram lá longe. Ele permanece lá, até então, e ela, sem ter noção da grandiosidade dos sentimentos que eles viriam a partilhar, partiu, deixando com ele um sutil adeus.


O tempo, na sua imperdoável sina de tudo (des)fazer, os aproximou à distância, tornando-os não só meros amigos, mas irmãos no amor, amadores de uma vida inteira: ele, na esperança de que um dia ela venha a permitir-se; e ela, por sua vez, crendo fielmente num possível reencontro jurado por ele. Uma realidade que mais está para uma equação que envolve grandezas inversamente proporcionais. Duas criaturas que nem imaginavam que pudessem entrar na vida um do outro e permanecer. Mãos que, apesar dos pesares, se tomaram com doçura, tentando conter a dor que antes habitavam seus corações partidos em milhões de cacos, iniciando o processo de (re)preenchimento daquilo que havia se esvaído, porque a completude de antes, agora se torna cada vez mais inalcançável.

sábado, 5 de setembro de 2009

(Re)descobertas

À Janinne Medeiros






Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.
(Antoine de Saint-Exupéry)





É noite. Estou sentada na sala de aula, onde deveria, teoricamente, estar prestando atenção naquela disciplina que trata de alguns tópicos de gramática, mais precisamente no âmbito da sintaxe. Eis o contexto de produção desse escrito. No fundo, quando optei pelo curso de Letras, ao prestar vestibular, sabia que o manuseio com a linguagem me permitiria ler um mundo sob um prisma, onde as respostas às minhas inúmeras perguntas seriam múltiplas.
No entanto, para minha surpresa, ao trilhar esse caminho, encontrei pessoas que me estimularam a mostrar minha melhor face, meu melhor ângulo, mesmo sendo um ethos construído paradoxalmente: ora pueril, extremamente sorridente; ora frágil, transbordando sensibilidade. Sou mesmo alguém multifacetada.
Mas o que eu, realmente, não havia percebido ainda, era quão inocente e desprovido de julgamentos era o meu ponto de vista. Não sei dizer em que período da minha vida essa estranha credulidade tornou-se capacidade, porém, descobri a duras penas, que isso não é uma qualidade. Pois, naquele momento, por acreditar nas palavras de um certo alguém, feridas se abriam, e até hoje estão por cicatrizar.
Só tive a dimensão disso quando o seio maternal daquela criatura tão intensa me embalou os pesadelos e, com o doce som de uma cantiga de ninar, me conduziu pela mão até o espelho,mostrando-me aquilo que, nem no meu íntimo, eu tinha consciência que existia. Ela cuidou dos meus machucados; me protegeu; me defendeu daqueles que insistem em maltratar q quem tanto os quer bem.
'A vida é feita de descobertas'. Isso é tão óbvio que já se tornou clichê. Mesmo com toda a carga de redundância, eu acrescentaria algumas palavras a essa sentença: 'a vida é a constante (re)descoberta de nós mesmos'. Não quero dizer que, depois de me ter (re)visitado eu tenha mudado, mas, sim, que agora eu conheço um pouquinho mais daquela 'Louize' que estava escondidinha lá no fundo do armário. Decerto, posso afirmar que me conheço mais um pouco hoje devido à ajuda dela. Aqui se encerram seus merecidos créditos.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Ao ausente ainda presente*




[...] e o próprio tempo, no papel tão fácil de dividir em atos e cenas, naquele exato momento, estava escapulindo por entre seus dedos, de modo incontrolável.

(Reparação – Ian McEwan)




Estamos em pleno outono. Não sei se pela cadência da estação, mas hoje, assim como todos os outros dias, porém com mais intensidade, lembrei do momento em que Ele me dizia adeus. Um adeus tão prematuro que, a todo instante, me fragiliza. Releio alguns escritos, revejo fotos, e, tal como um filme, imagens vão se colocando à minha frente. Parece que tudo aconteceu ontem mesmo, ou melhor, há minutos, instantes atrás. Sua presença ainda é tão forte em mim, que ainda sinto exalar o seu cheiro quando passo ou permaneço naqueles lugares que nos eram tão familiares e que, agora, carregam apenas as mais ternas lembranças e os desejos mais íntimos.

Chove lá fora. Saio porque quero que o ato de molhar faça com que as gotas d’água se vertam em sangue de meus poros, esgarçando, a quem queira ver, minhas veias pulsantes, e, assim, minha dor. É o sentimento mais barroco que conheço: ora exultante em júbilos, ora desgraçado por aquilo que parece dilacerar o tecido frágil que envolve o coração. E é neste segundo momento, infelizmente, em que me encontro.

Certa vez Reika escreveu: ‘Nem sei dizer o quanto dói esse mover-se’. Nesse instante, eu também não. Por isso há dias parei a escrita desse texto, pela falta de coragem em descrever como o passar dos dias me machucam, eles são tão cheios de vazios... Mas tomei emprestadas algumas forças para concluí-lo, é o meu querer.

Então, após dias de atraso e já no inverno, cristalizam-se, como o gelo, comum nessa época do ano, os instantes que no outono eram meras lembranças. Talvez agora meu peito já não esteja mais aberto e minha dor já não seja mais sem tamanho. É hora de pensar no agora, que há um segundo a frente já é depois. É preciso aproveitar positivamente cada instante que passamos pela vida, ou, pelo menos, por essa vida. Ela é infinitamente mínima.

O que me resta? Uma onda frêmita de medo. Tudo se resume em medo. Medo de não mais poder querer o bem querer, não querer o futuro próximo, somente a Ele. Medo d’Ele não mais me querer de maneira alguma. Tentativas frustradas apontam para a conclusão de que não devo abrir qualquer minúscula fenda a quem quer que se disponha a me fazer sorrir. Porque, agora, meu sorriso é incompleto, meus lábios sorriem pela metade.



*A escritura desse texto iniciou-se nos meados do outono de 2009, sendo finalizado no início do inverno do mesmo ano.

domingo, 23 de agosto de 2009

AUTO-RETRATO

Em uma de suas crônicas, a Martha Medeiros diz que "a gente é o que a gente gosta". Em seguida, ela diz que "a gente é nossa comida preferida, os filmes que a gente curte, os amigos que escolhemos, as roupas que a gente veste, a estação do ano preferida, nosso esporte, as cidades que nos encantam". E, mais adiante, ela sugere: "Você não está fazendo nada agora? Eu idem. Vamos listar o que a gente é: você daí e eu daqui". Atendendo à sugestão dela, aqui estou eu:

Das estações eu sou o verão. Certamente, aqueles que me conhecem concordariam e metaforizariam a luminosidade dos raios solares com os sorrisos que distribuo, muitas vezes, sem olhar a quem. Mas certos momentos exigem que eu seja outono, declinando, como fazem as folhas secas. Cá pra nós, minha fase "outonal" me é tão pessoal, que algumas pessoas acreditam, cegamente, que eu sou a própria "felicidade".

Sou a música suave que soa ao tocar a brisa nas árvores. E também aquela que incita meu corpo a se mexer involuntariamente. Sou Marisa Monte, Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes. Sou Djavan, Chico Buarque, Caetano Veloso. Sou MPB.

Sou, inteiramente, literatura: de Machado de Assis a Mario de Andrade. De Álvares de Azevedo a Carlos Drummond. Sou Exupéry. Sou Pablo Neruda. Sou Gabriel García Márquez. Delas, sou Cecília Meireles, Clarice Lispector, Jane Austen e, principalmente, Florbela Espanca.

Sou fome e sede incessantes.

Sou rímel e blush. Sou unhas roídas. Sou jeans e chinelo. Sou ondas, cachos. Sou naturalidade. Sou desorganização. Sou globalização: correria, celular, computador e internet. Sou fibra óptica, percorrendo os caminhos que fiz, faço e farei.
Sou as flores que colhi. Pra Francieli eu sou "uma moça exposta aos perigos". Renan diz que eu sou "morena da cor do pecado". Rosa me chama de "maga véia", mas eu acho mesmo que sou "Magali". Eu não sou "perigosa", certo, Taynã? Júlio fala que sou "graciosa". Nas palavras de Reika eu posso ser "alguém que a dor não corrompeu", mas também, a "personificação da doçura". Pra Déa já fui "furona". Pra Ele serei sempre "Lolô".


Sou puro sentimentalismo, quase melodrama. Sou perdas e ganhos. Sou o desejo de reaver o que foi perdido. Sou menina, adolescente, mulher. Sou toda confluências.