segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Canção à distância

A Renan Calheiros Franco





De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

(Soneto de separação - Vinícius de Moraes)




Numa de suas obras-primas, Cem anos de Solidão, Gabriel García Márquez afirma que "a ciência eliminou as distâncias". De fato, atualmente, com o advento da globalização, e, consequentemente, das inovações tecnológicas, o acesso a informações de ampla natureza tem sido facilitado. Com isso, uma das ferramentas mais utilizadas para fins comunicativos é, sem dúvida, a internet. Em verdade, não estou aqui com o objetivo de informar-lhes sobre a importância dos veículos de informação no século XXI, essa tarefa eu deixo a cargo daqueles que se interessem em fazê-la, mas é importante salientar o contexto de uma, das tantas reviravoltas que me ocorreram vida afora.


Dissonar de García Márquez é até um pecado, mas é necessário colocar que a ciência, a tecnologia, a internet, não eliminam distâncias. Por um lado, esses recursos até aproximam pessoas que estão não muito próximas, fisicamente falando, mas, por outro, torna cada vez mais evidente a dimensão dessa distância. Digo isso por experiência própria, são, nada menos, que 3.700 km que se colocam entre nós. E, pode ter certeza, se não fosse o Google eu não teria essa informação com tanta precisão! Estamos, literalmente, nos extremos de uma mesma bússola.


O desenrolar do novelo pesado que é a distância, acarreta uma (re)visita a um campo semântico não muito bem-aventurado, aquele que envolve lexemas como afastamento, violação, ruptura, separação, saudade... No meu ponto de vista, esse é um dos grupos de palavras mais angustiante da Língua Portuguesa. Mas, mesmo assim, em meio a tantas possíveis impossibilidades, ouvi falar por aí, de uma moça e um rapaz que se conheceram lá longe. Ele permanece lá, até então, e ela, sem ter noção da grandiosidade dos sentimentos que eles viriam a partilhar, partiu, deixando com ele um sutil adeus.


O tempo, na sua imperdoável sina de tudo (des)fazer, os aproximou à distância, tornando-os não só meros amigos, mas irmãos no amor, amadores de uma vida inteira: ele, na esperança de que um dia ela venha a permitir-se; e ela, por sua vez, crendo fielmente num possível reencontro jurado por ele. Uma realidade que mais está para uma equação que envolve grandezas inversamente proporcionais. Duas criaturas que nem imaginavam que pudessem entrar na vida um do outro e permanecer. Mãos que, apesar dos pesares, se tomaram com doçura, tentando conter a dor que antes habitavam seus corações partidos em milhões de cacos, iniciando o processo de (re)preenchimento daquilo que havia se esvaído, porque a completude de antes, agora se torna cada vez mais inalcançável.