Estamos em pleno outono. Não sei se pela cadência da estação, mas hoje, assim como todos os outros dias, porém com mais intensidade, lembrei do momento
Chove lá fora. Saio porque quero que o ato de molhar faça com que as gotas d’água se vertam em sangue de meus poros, esgarçando, a quem queira ver, minhas veias pulsantes, e, assim, minha dor. É o sentimento mais barroco que conheço: ora exultante em júbilos, ora desgraçado por aquilo que parece dilacerar o tecido frágil que envolve o coração. E é neste segundo momento, infelizmente, em que me encontro.
Certa vez Reika escreveu: ‘Nem sei dizer o quanto dói esse mover-se’. Nesse instante, eu também não. Por isso há dias parei a escrita desse texto, pela falta de coragem em descrever como o passar dos dias me machucam, eles são tão cheios de vazios... Mas tomei emprestadas algumas forças para concluí-lo, é o meu querer.
Então, após dias de atraso e já no inverno, cristalizam-se, como o gelo, comum nessa época do ano, os instantes que no outono eram meras lembranças. Talvez agora meu peito já não esteja mais aberto e minha dor já não seja mais sem tamanho. É hora de pensar no agora, que há um segundo a frente já é depois. É preciso aproveitar positivamente cada instante que passamos pela vida, ou, pelo menos, por essa vida. Ela é infinitamente mínima.
O que me resta? Uma onda frêmita de medo. Tudo se resume
*A escritura desse texto iniciou-se nos meados do outono de 2009, sendo finalizado no início do inverno do mesmo ano.
